Anos depois, a Procuradoria Federal da Alemanha descreveu um cidadão britânico identificado como Mohammed A. como uma figura de destaque em uma suposta operação do Hamas para adquirir e armazenar armas destinadas a ataques contra alvos israelenses e judeus na Europa.
O The Times afirma que não pode divulgar o nome do homem por causa de uma restrição imposta por um tribunal britânico em um processo criminal separado no Reino Unido. Reportagens publicadas fora do país, porém, identificaram o suspeito do caso alemão como Mohammed Naim, filho do dirigente sênior do Hamas Bassem Naim. Em novembro de 2025, o jornal alemão WELT informou que Naim havia sido segurança de Haniyeh e publicou uma foto de 2007 em que Mohammed Naim aparece ao lado do então líder do Hamas.
O que alegam os procuradores alemães
Em um comunicado oficial de novembro de 2025, a Procuradoria Federal da Alemanha informou que o cidadão britânico Mohammed A. havia sido preso em Londres com base em um mandado alemão e era fortemente suspeito de integrar o Hamas.
Segundo o mandado, Mohammed A. teria se encontrado duas vezes em Berlim, no verão de 2025, com outro suspeito, recebido cinco pistolas e munição, levado as armas para a Áustria e armazenado o material em Viena. De acordo com os procuradores, a operação tinha como objetivo preparar ataques contra instalações israelenses ou judaicas na Alemanha e em outros pontos da Europa.
Na mesma época, o serviço austríaco de segurança e inteligência anunciou a descoberta, em Viena, de um esconderijo de armas atribuído às estruturas operacionais externas do Hamas. Cinco pistolas e dez carregadores foram apreendidos.
A investigação se ampliou desde então. Em 11 de setembro de 2026, a Procuradoria Federal alemã anunciou acusações contra outros sete suspeitos no caso de aquisição de armas. Segundo a acusação, o braço militar do Hamas preparava desde pelo menos julho de 2025 um ataque na Alemanha ou na Áustria, planejado para o período próximo ao segundo aniversário do ataque de 7 de outubro de 2023 contra Israel.
Os possíveis alvos, de acordo com os procuradores, incluíam representantes de Israel, judeus e pessoas consideradas pró-Israel na Alemanha ou na Áustria.
A Procuradoria afirma que, até 1º de outubro de 2025, o grupo já teria obtido um fuzil totalmente automático em funcionamento, 13 pistolas operacionais e mais de 700 munições. Mohammed A. responde em um processo separado. O comunicado de setembro de 2026 diz que ele teria desempenhado um papel de destaque, mantido ligação com o nível de liderança do Hamas, transportado parte das armas para Viena e gravado antecipadamente um vídeo de reivindicação anunciando o ataque planejado em nome do Hamas.
Até 11 de setembro de 2026, as autoridades alemãs informavam que ele ainda não havia sido transferido do Reino Unido. O Hamas negou ligação com os suspeitos presos na investigação.
The Times: do asilo à cidadania britânica
A novidade da reportagem do The Times está no histórico migratório do homem no Reino Unido. Segundo o jornal, ele recebeu asilo, posteriormente obteve autorização de permanência por prazo indeterminado e, por fim, tornou-se cidadão britânico. A reportagem também afirma que ele viveu no Reino Unido, trabalhou com tecnologia da informação e mudou de nome mais de uma vez.
Seu processo migratório não é público, e este material não inclui um arquivo oficial do Home Office que confirme de forma independente cada etapa descrita pelo jornal. Por isso, os detalhes sobre asilo, residência e cidadania devem permanecer claramente atribuídos ao The Times.
Ainda assim, a reportagem cria uma questão direta: quais informações sobre o passado desse homem eram conhecidas, ou poderiam ter sido razoavelmente encontradas, pelas autoridades britânicas quando suas solicitações foram avaliadas?
Um relato egípcio de 2010 já associava Naim a Haniyeh
Há também um capítulo bem mais antigo. Em setembro de 2010, o jornal egípcio Al-Masry Al-Youm, citando fontes de segurança do Egito, informou que Mohammed Naim - então descrito como segurança de Haniyeh e filho de Bassem Naim - havia sido detido no país meses antes.
A reportagem alegava que a investigação examinava uma possível ligação com um túnel de contrabando entre Gaza e o Egito, além do transporte de dinheiro e ouro. Outras matérias da época também mencionavam acusações de auxílio à passagem de pessoas procuradas em casos de terrorismo.
Essas notícias não estabeleceram uma condenação. Um veículo palestino ligado ao Hamas publicou, no mesmo período, uma versão diferente, segundo a qual Naim teria sido detido sem acusação formal e a prisão estaria relacionada à sua ligação familiar. O episódio de 2010 deve, portanto, ser tratado como uma alegação histórica contestada, e não como uma condenação comprovada.
A relevância hoje é específica: o nome de Mohammed Naim e sua suposta proximidade com a liderança do Hamas já eram objeto de reportagens públicas mais de uma década antes da investigação europeia de 2025.
Um caso, três níveis diferentes de evidência
A história exige separar três pontos. O primeiro é a reportagem do The Times sobre como o homem obteve status legal e cidadania no Reino Unido. O segundo é a identificação de Mohammed A. como Mohammed Naim, baseada em reportagens estrangeiras, incluindo a WELT. O terceiro é o processo criminal alemão, no qual os procuradores alegam participação na aquisição de armas e na preparação de ataques; essas acusações ainda não foram julgadas em definitivo.
Em conjunto, os elementos levantam uma questão de segurança mais ampla. Um homem que viveu legalmente por anos no Reino Unido e aparentemente passou por várias etapas de análise migratória e de naturalização acabou se tornando um suspeito central em uma investigação europeia sobre terrorismo e armas. Se os detalhes migratórios publicados no Reino Unido forem integralmente confirmados, a atenção deverá se voltar para quais informações estavam disponíveis às autoridades, como foram avaliadas e se sinais de alerta deixaram de ser identificados ou conectados a tempo.