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Oriente Médio

This Is Our Story: a série documental da Manoto sobre os protestos e a repressão de janeiro de 2026 no Irã

Em 26 de setembro de 2026, a Manoto publicou no YouTube This Is Our Story, conhecida em persa como «این روایت ماست», uma série documental em quatro partes sobre o movimento de protesto que começou no Irã em 28 de dezembro de 2025 e sobre a repressão letal que se intensificou especialmente nos dias 8 e 9 de janeiro de 2026.

manifestantes iranianos filmando com celulares durante um protesto noturno, representando a série This Is Our Story
Ilustração para a série documental This Is Our Story sobre os protestos do Irã em janeiro de 2026. · Aviso

Juntos, os quatro episódios somam cerca de sete horas e 34 minutos. A série se apoia amplamente em material gravado dentro do Irã: vídeos de celulares, vozes de testemunhas, cenas das ruas e de instalações médicas, buscas por parentes desaparecidos, centros forenses e mortuários, funerais e cerimônias de luto realizadas quarenta dias depois. A Manoto afirma que o projeto reúne imagens, testemunhos e materiais de dentro do país para reconstruir o que aconteceu durante os protestos de janeiro.

A IsraelNews.io incorpora abaixo os quatro episódios na ordem oficial da playlist, acompanhados do contexto necessário para entender o que mostram, o que também foi corroborado de forma independente e quais alegações continuam difíceis de verificar.

Aviso de conteúdo: o documentário contém imagens extremamente perturbadoras de tiros, pessoas gravemente feridas, corpos em instalações forenses e mortuárias, prisões, violência física, famílias enlutadas e áudios angustiantes. Recomenda-se cautela ao assistir.

Episódio 1: The City Stops - como um protesto econômico se espalhou

O primeiro episódio cobre os onze primeiros dias do movimento, de 28 de dezembro de 2025 a 7 de janeiro de 2026. O gatilho imediato foi econômico: forte queda do rial, inflação elevada e piora das condições de vida. Protestos de comerciantes e lojistas em Teerã se espalharam para outras cidades e localidades, enquanto as reivindicações rapidamente ultrapassaram a questão cambial e a gestão da economia.

Human Rights Watch e Anistia Internacional documentaram, já nessa fase inicial, o uso de força contra manifestantes e transeuntes, incluindo armas de fogo, projéteis metálicos, gás lacrimogêneo, canhões de água e espancamentos. Mortes já eram relatadas em várias províncias antes de 8 de janeiro, enquanto o movimento continuava a se expandir.

Isso torna o primeiro episódio essencial para entender a cronologia. Os dias 8 e 9 de janeiro não surgiram de forma isolada. Foram precedidos por mais de uma semana de protestos em expansão, confrontos e uma resposta estatal cada vez mais dura.

Externo / Redes sociais

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www.youtube.com/watch?v=dbTot6IsC_k

Episódio 2: The Night of Hope - 8 de janeiro e a mobilização em massa

O segundo episódio se concentra em 8 de janeiro, correspondente a 18 de Dey de 1404 no calendário iraniano. Grandes multidões foram às ruas após um chamado à ação de Reza Pahlavi, filho exilado do último xá do Irã. Esse chamado não foi a origem dos protestos, que já duravam onze dias, mas 8 de janeiro se tornou um dos principais momentos de mobilização nacional.

Fontes internacionais mostram que, naquele momento, os protestos já haviam alcançado dezenas de cidades. Diferentes organizações contabilizaram manifestações usando métodos e datas distintos, portanto não existe um único número que resuma perfeitamente sua escala. O que está claro é que o movimento já tinha deixado de ser um fenômeno localizado em Teerã.

Naquela noite, o Irã entrou em um apagão quase total de internet e telecomunicações. A NetBlocks registrou um colapso dramático da conectividade nacional, enquanto relatórios da ONU e veículos internacionais descreveram interrupções generalizadas. A partir daí, jornalistas e organizações de direitos humanos tiveram muito menos capacidade de acompanhar os acontecimentos em tempo real.

O episódio acompanha essa mudança de clima: a esperança e a expectativa das multidões que saem de casa dão lugar a tiros, feridos, confusão e medo à medida que a resposta das forças de segurança aumenta.

Externo / Redes sociais

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www.youtube.com/watch?v=kn9m6DUTJG8

Episódio 3: Kahrizak - das ruas aos hospitais e necrotérios

Aviso adicional: o terceiro episódio é provavelmente o mais difícil de assistir. Sua descrição oficial menciona tiros, feridos, instalações médicas, famílias procurando desaparecidos e fileiras de corpos.

O episódio avança para 9 de janeiro, segundo dia da mobilização nacional. O Irã já estava sob um severo apagão de comunicações, mas gravações de celulares continuavam surgindo. O capítulo mostra tiros, vítimas, centros de atendimento improvisados, hospitais e famílias tentando descobrir o que aconteceu com parentes que nunca voltaram para casa.

Kahrizak, na província de Teerã, torna-se um dos locais centrais. A precisão é importante: no contexto deste episódio, trata-se de instalações forenses e mortuárias. O local não deve ser automaticamente descrito como a prisão de Kahrizak. O documentário se desloca das ruas para as consequências da violência, quando parentes procuram pessoas em hospitais, necrotérios e centros forenses.

Reportagens independentes sustentam o quadro geral de violência extensa. A Human Rights Watch disse ter verificado vídeos de hospitais e necrotérios do período dos protestos, enquanto a missão independente de investigação da ONU afirmou estar analisando vídeos e fotografias que mostrariam forças de segurança atirando contra manifestantes. Isso não autentica cada clipe usado pela Manoto, mas corrobora de forma independente que partes importantes da repressão foram registradas visualmente enquanto ocorriam.

Externo / Redes sociais

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www.youtube.com/watch?v=MMkaLCXMF30

Episódio 4: 40 Days - da busca por desaparecidos a funerais e memoriais

O quarto episódio deixa a repressão imediata e acompanha o que veio depois. Famílias procuram corpos, identificam parentes, realizam funerais e, mais tarde, reúnem-se para as tradicionais cerimônias de luto de quarenta dias após a morte ou o sepultamento.

O documentário mostra como o luto também se transformou, em alguns lugares, em espaço público de memória e protesto. Funerais e cerimônias memoriais incluíram, segundo as imagens, linguagem patriótica, palavras de ordem contra o governo e, em alguns casos, dança, enquanto algumas famílias também enfrentavam pressão e vigilância das autoridades.

Não houve uma única data nacional para os quarenta dias. As cerimônias ocorreram em datas diferentes, conforme o dia da morte ou do sepultamento de cada pessoa. O episódio funciona, portanto, como registro de um período prolongado em que famílias tentaram preservar nomes e histórias após a fase de violência mais imediata.

Externo / Redes sociais

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www.youtube.com/watch?v=VKLXo7L3XjY

Mais de 10 mil vídeos? O que se sabe sobre a montagem da série

A Manoto afirma que a série reúne imagens, testemunhos e materiais de dentro do Irã. Reportagens publicadas durante o lançamento disseram que uma pequena equipe da emissora passou mais de seis meses analisando mais de 10 mil gravações feitas por pessoas no país. O cronograma é plausível, mas não existe um registro público de produção nem um documento metodológico independente que confirme o número ou explique como cada vídeo foi avaliado.

Também não foi publicada uma metodologia detalhada que explique se arquivos originais e metadados foram preservados, como local e horário foram estabelecidos, se os autores das imagens foram entrevistados, como duplicatas foram detectadas ou quais critérios permitiram incluir uma gravação. Por isso, o número de mais de 10 mil vídeos deve permanecer como uma afirmação atribuída à produção e à cobertura relacionada.

Reportagens atuais também descrevem o documentário como uma obra sem narrador externo, em que os acontecimentos são contados pelas imagens e pelas vozes das pessoas que estavam lá, com legendas em inglês. Essa escolha aumenta a sensação de imediatismo, mas a ausência de um narrador não significa ausência de seleção, edição ou interpretação editorial.

Quantas pessoas morreram? A resposta depende da fonte e do método

Um dos erros mais fáceis ao descrever a repressão de janeiro é escolher um número e tratá-lo como o total definitivo. Em 28 de setembro de 2026 não existe uma única cifra universalmente aceita.

As autoridades iranianas anunciaram 3.117 mortes em janeiro. Trata-se de um número oficial do governo, mas os registros e classificações que o sustentam não foram abertos a uma revisão independente completa.

A HRANA informou pelo menos 7.005 mortos até 12 de fevereiro, incluindo integrantes das forças governamentais. A Associated Press afirmou não conseguir verificar o total de maneira independente por causa das restrições de acesso e comunicação.

A Iran Human Rights publicou em setembro um mínimo documentado de 4.219 mortes, usando um processo mais rigoroso caso a caso com nomes, datas, locais e múltiplas fontes. A organização descreve expressamente a cifra como um mínimo documentado, não como estimativa do total final. Isso ajuda a explicar por que o número pode ser menor que o total mais amplo da HRANA sem necessariamente contradizê-lo.

A Anistia Internacional concluiu que forças de segurança mataram ilegalmente milhares de manifestantes e transeuntes em 8 e 9 de janeiro e feriram dezenas de milhares. A organização também citou outras estimativas, incluindo mais de 5 mil mortos e informações de fontes médicas indicando que o número poderia ser consideravelmente maior.

A cobertura associada ao lançamento de This Is Our Story também divulgou estimativas próximas de 30 mil mortos. Essa cifra não foi confirmada de forma independente e é substancialmente superior aos totais nominais ou documentados publicados por grandes organizações de direitos humanos. Ela não deve ser apresentada como um balanço final estabelecido.

Por que as gravações de celular importam

O apagão de 8 de janeiro transformou registros feitos por cidadãos em uma das janelas mais importantes para entender o que ocorria dentro do Irã. Um vídeo de celular pode preservar tiros, vozes, rostos, uma rua ou um momento específico mesmo quando não há equipes de imprensa presentes. Ao mesmo tempo, o clipe isolado nem sempre revela exatamente quando ou onde foi gravado, quem aparece ou o que aconteceu imediatamente antes e depois.

Por isso, o valor histórico de This Is Our Story não elimina a necessidade de verificação. Ele a torna ainda mais importante. Quanto mais forte ou perturbadora é uma imagem, mais necessário é separar aquilo que ela mostra claramente, aquilo que os realizadores dizem sobre ela e aquilo que investigadores independentes conseguiram corroborar.

Juntos, os quatro episódios formam uma progressão clara: protesto econômico, mobilização nacional, repressão letal sob um apagão de comunicações, busca por desaparecidos e corpos, e depois funerais e cerimônias de quarenta dias. Qualquer que seja o número final que futuras investigações estabeleçam, a série tenta preservar o registro visual produzido dentro do Irã num momento em que o mundo exterior tinha pouca capacidade de ver em tempo real o que acontecia no país.

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